Carrie Elizabeth Buck (1906-1983) nasceu na mesma cidade que a condenou. Filha de Emma Buck e mãe de Vivian, Carrie poderia ter levado uma vida típica não fosse sua sentença, realizada sob os auspícios do Ato de Integridade Racial promulgado em 1924.  O decreto fazia parte de um novo projeto de nação adotado pelos Estados Unidos e compartilhado por muitos outros países: a eugenia.

Tal movimento social e científico cedeu às instituições e governos de todo o mundo teorias e métodos muito específicos para a resolução das mazelas sociais. Concebida e sistematizada em seus princípios pelo polímata vitoriano – e ovacionado como pioneiro da psicologia funcional- Francis Galton (1822-1911), a lei fundamental que a caracterizava – e legitimava-  como ciência e técnica era clara: partindo de pressupostos evolucionistas, os eugenistas consideravam que a variabilidade dentre a espécie humana acarretava em caracteres hereditários positivos ou negativos. Era preciso, portanto, que a ciência eugenista investigasse, identificasse e oferecesse conhecimento para o fomento – por políticas públicas- dos caracteres de valor positivo, enquanto os de valor negativo – como a suposta promiscuidade sexual das mulheres Buck- deveriam ser sistematicamente extintos. Essa extinção se daria com esterilizações, impedimentos de matrimônios, confinamentos e, em última instância, eutanásias. Eliminava-se do porvir humano, assim, os degenerados e doentes. Nota-se que a eugenia, diferentemente dos ímpetos sanitarista, não visava o combate da doença em si, mas da própria existência de doentes.

Angariando rapidamente muitos defensores – oriundos de campos diversos- a eugenia configurou-se como forte campanha, realizada por aqueles que partilhavam dos mesmos ímpetos dos que comemoraram a esterilização compulsória de Carrie e de milhares de pessoas como grande vitória rumo ao futuro ausente de maus caracteres hereditários.

Médicos e juristas envolvidos no caso de Carrie Buck com muita clareza justificaram: sua mãe, Emma, havia sido internada na Colônia para Epiléticos e Débeis Mentais por conta de apresentar comportamento imoral, se prostituir e ter sífilis. Carrie, assim, foi tirada da mãe e dada em adoção para a família Dobbs. Pelo período em que frequentou a escola, obteve notas médias. No entanto, logo foi tirada dos estudos para auxiliar a família nas tarefas domésticas, tempo em que alegou ter sido estuprada por um dos sobrinhos dos Dobbs. Aos dezessete, a gravidez em decorrência do estupro de Carrie foi vista pelos pais adotivos como sinal de mau comportamento e promiscuidade, o que os fez enviá-la à mesma instituição onde havia vivido a mãe, Emma. Após o nascimento da bebê Vivian, os Dobbs a adotaram e com ela ficaram até o final de sua breve vida, que se deu aos oito anos por conta de problemas no intestino.

eugenia

Figura 1. Carrie e sua mãe Emma. Fonte: http://psychcentral.com/blog/archives/2011/01/24/eugenics-the-story-of-carrie-buck/

A esterilização de milhares de pessoas, sobretudo, de mulheres, constituiu séria preocupação eugenista. O anátomo-passado e a hereditariedade, afinal, seriam a grande causa das degenerações mentais e estas, por consequência imediata, da decadência das sociedades. Valendo-se do discurso do terror quanto ao futuro, prevenir tornava-se preciso: Doris, irmã de Carrie, também foi esterilizada sob ordens especiais quando precisou ir ao hospital por conta de uma apendicite. Segundo esse raciocínio, corrigia-se o passado, compensava-se o defeito humano de criar mecanismos artificiais de existência e salvava-se o futuro pela eliminação das mulheres Buck.

Tais constructos teóricos que levaram às correlações entre as características físicas com as faculdades mentais, bem como do conteúdo do plasma germinativo aos condicionantes do modo de ser humano passaram a fazer parte das problematizações do campo psi. Uma pergunta que, por pouco questionada em si tornou-se insistente e inevitavelmente produziu respostas duvidosas que perduram até a atualidade, não obstante esforços de áreas do conhecimento que atentam para a constante necessidade de ampliação das perspectivas para que as teorias não decorram em determinismos. Principalmente, não resultem em intolerância.

No mês de fevereiro de 2015 as vítimas das esterilizações eugenistas norteamericanas conquistaram importante vitória: conseguiram ser indenizadas pelo Estado pela grave injustiça passada, resultando em maior ganho simbólico do que alguma reparação material.  Nota-se que a lei que vitimou Carrie perdurou até 1979.  Se há motivo para comemorar as conquistas pelo direito de não submeter-se a estes crimes, é certo que há, igualmente, motivo para manter a atenção aos projetos de lei de cunho eugenista que, insistentes, constantemente reaparecem sob novas  – e sempre “bem intencionadas”- maquiagens.

*Texto elaborado a partir do artigo de minha autoria  “Eugenia: a mente sob os desígnios da hereditariedade” Referência: Jornal de Psicanálise, n. 48, p. 205-220.

(Tamara Prior é historiadora, mestranda em Medicina Preventiva pela USP).