Aparentemente, falar sobre a importância de Freud seria uma tarefa tão simples, que quase poderia ser respondida pelo seu negativo: é possível ser psicanalista sem ler Freud? Ou ainda: é possível pensar a contemporaneidade sem estarmos atravessados pelo pensamento freudiano?

Sabemos, entretanto, que apenas aparentemente esta tarefa é fácil. Refletir sobre a importância de um autor do quilate de Freud exige que nos debrucemos sobre diversas questões, entre elas, as relações que se estabelecem entre o pai da psicanálise e seus seguidores e opositores.

Ao lado das descobertas de Copérnico e de Darwin, o pensamento de Freud é considerado uma das três feridas narcísicas infligidas à humanidade. Enquanto Copérnico substituiu a ideia da terra como centro do universo e Darwin deslocou o homem da posição de superioridade em relação aos outros animais, Freud desferiu o terceiro golpe na onipotência humana, ao tirar da consciência o eixo do nosso funcionamento psíquico e ao mostrar a importância da sexualidade.

Se, por um lado, a radicalidade do pensamento freudiano provoca resistência e reiteradamente se proclama a morte da psicanálise, por outro, ela dá mostras de vitalidade e, sendo uma disciplina que sobrevive à morte de seu fundador, já não se pode dizer que psicanálise seja sinônimo de freudismo. Com o desenvolvimento da psicanálise, diferentes autores criaram um pensamento fecundo e original, e então assistimos à criação das chamadas escolas de psicanálise (kleiniana, bioniana, winnicottiana, lacaniana). Diferentes entre si, os autores que dão nome às escolas partiram de um contato bastante próximo com a teoria de Freud e, assim como os seguidores das respectivas escolas, compreendem que suas contribuições estão em continuidade à raiz freudiana.

Não me deterei aqui na questão da intolerância entre as escolas ou, tampouco, no debate acerca das tentativas de se definir o que seria a verdadeira psicanálise. O que me interessa assinalar é que, com o desenvolvimento da psicanálise, o papel da leitura do texto freudiano no processo de formação psicanalítica adquire sentidos diversos entre os psicanalistas.

A obra dos sucessores pode ser vista como um desenvolvimento de pontos não suficientemente aprofundados por Freud e, assim, a leitura do texto freudiano teria um interesse histórico, na medida em que mostraria tão somente a gênese daquilo que, com o decorrer do tempo, se revelaria um pensamento mais desenvolvido e sofisticado.

Outra corrente de psicanalistas compreende que os seguidores teriam se distanciado do pensamento original de Freud e este distanciamento, por sua vez, seria uma forma de resistência àquilo que a psicanálise tem de mais radical e disruptivo. Pregam então o retorno a Freud, porém tal retorno pode operar de distintas maneiras.

Pode partir do pressuposto de que é possível haver um retorno “puro” ao texto freudiano, isto é, de que se poderia ler a obra de um autor sem se deixar atravessar pelo que foi produzido depois dele. De acordo com esta perspectiva, o texto freudiano, à exemplo do discurso do mestre, conteria a sabedoria das grandes escrituras e, em sendo assim, teria respostas às questões que viessem a se colocar a qualquer tempo. Ao leitor, caberia decifrar o ensinamento que, desde sempre, já estaria contido no texto.

Outro modo de se relacionar com o texto freudiano resulta da compreensão – da qual eu compartilho – de que Freud criou um campo de conhecimento, uma teoria e um método capazes de possibilitar um desenvolvimento muito maior do que ele poderia prever, e que há na sua escrita um componente dialógico que lhe confere frescor e atualidade.

Como se sabe, Freud é considerado um dos maiores prosadores em língua alemã, e o único prêmio que recebeu em vida foi o prêmio Goethe de literatura. Ao analisar as particularidades de sua escrita, Patrick Mahony enfatiza que Freud “escreve buscando descobrir o que pensa e, por outro lado, divide com o leitor essa rica aventura (…) Tal discurso não envolve apenas um estilo de escrever acerca da psicanálise; manifesta-se igualmente num estilo que abrange a experiência psicanalítica” (Mahony, 1992, p.13. grifos meus).

Não se trata aqui de reduzir o alcance da obra freudiana à qualidade de seus escritos, porém de enfatizar uma dimensão do texto que, a meu ver, o mantém vivo e atual.

Neste sentido, encontramos em Freud uma forma de expressão que permite uma relação entre o clássico e o atual, como analisado por Ítalo Calvino. Diz ele: “É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível” (Calvino, 2004, p. 15).

Há em Freud um estilo vivo, atraente e saboroso que convida o leitor não só a acompanhar o seu pensamento, mas a reconstituir em si mesmo o processo de investigação, dando-lhe a oportunidade de tomar parte na elaboração da teoria. Ao utilizar a figura retórica do leitor crítico, Freud nos dá a possibilidade, por exemplo, de acompanhá-lo na viagem aos Alpes austríacos e formarmos nossa impressão de Katherina, a moça de 18 anos que o encontrou descansando numa pousada e, sabendo que ele era médico, resolveu lhe contar a história de sua doença nervosa.

A posição privilegiada em que Freud situa o leitor, nos permite acompanhar o andamento de suas investigações e conjecturas e, vendo-nos nesta posição de um interlocutor tão íntimo, que vai formando um pensamento clínico junto com ele, o mantemos nesta posição de interlocutor, íntimo e indispensável, que pode nos ajudar a dar sentido às inquietações que encontramos na nossa própria clínica.

 

Referências:

CALVINO, Ítalo, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das letras, 2004

MAHONY, Patrick. Sobre a definição do discurso de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

 

(Claudia Amaral Mello Suannes é psicóloga e psicanalista. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP. Membro filiado ao Instituto Durval Marcondes da SBPSP.)