Aos quinze meses de idade, eu tive poliomielite – numa época em que as vacinas estavam sendo testadas – e, aos primeiros sinais da doença (pernas bambas), fui levado para o hospital. Desse momento em diante, passei por um longo período de isolamento e um anteparo de vidro impossibilitava qualquer contato – que não fosse o visual – com os meus pais. Depois desses acontecimentos e de cirurgias e novas hospitalizações, adquiri muito cedo o olhar grave daqueles que conheceram a catástrofe. E, ao longo da vida, adquiri uma sensibilização para o sofrimento infantil – que, certamente, está na raiz do meu trabalho atual como psicoterapeuta. Em um Serviço Escola, supervisiono os primeiros atendimentos clínicos a crianças e adolescentes, realizados por estudantes de psicologia. Portanto, as marcas deixadas por um sofrimento, se converteram em função psíquica.
Ao escrever esse trabalho, descobri que sou um resiliente e que, ao relatar a minha história, algumas amarras precisaram ser mais uma vez superadas. A resiliência é um processo contínuo de dar significado a acontecimentos traumáticos e depende, fundamentalmente, da presença humanizadora do outro. Para pensar livremente sobre o nosso tema, foi necessário que eu criasse internamente um grupo de colegas capaz de me ouvir.

Um menino machucado e uma consulta pela manhã

Posto isso, posso agora contar a vocês a história vivida que inspirou esse trabalho. Ela tem um valor especial, pois permite que observemos a resiliência em estado nascente e sugere algumas aproximações com a teoria winnicottiana do desenvolvimento emocional.

Estava passeando com o meu cachorro hoje de manhã e, alguns passos à frente, vinha um garoto gordinho com um copo na mão. Meu cachorro se interessou pelo copo e começou a farejar na direção dele, parecendo querer adivinhar o seu conteúdo. Quando passei pelo menino, ele se deu conta da nossa presença e disse: “Eu estava mesmo ouvindo uns passos de cachorro, mas pensei… será que é um cachorro mesmo?” Certamente, o menino estava voltado para dentro de si quando sentiu a nossa aproximação.. Eu respondi que o meu cachorro estava interessado no copo e no leite. O garoto me corrigiu, “não é leite, é chá…” e continuamos a caminhar, agora lado a lado, eu ele e o cachorro. Como havia uma escola nas proximidades, imaginei que, provavelmente, ele fora dispensado da aula e que alguém lhe dera chá em um copo descartável. Enquanto isso, mudei um pouco a minha rota para fazer companhia para ele.
De repente, ele disse: “Eu não estou passando muito bem”. E começou a contar que, no caminho para a escola, viu um gato morto na rua com as vísceras, tripas para fora e com a cabeça esmagada. Havia também algo ligado a entregar uma chave da casa para a mãe, que não entendi muito bem em seu relato.
Perguntei se era a primeira vez que ele via algo assim. Ele respondeu que sim. Parecia muito impressionado com o que vira. Disse a ele que quando a gente vê algo assim, pensa na morte. Geralmente a gente não pensa nisso, mas quando vê algo como ele viu, começa a pensar na morte e fica com medo de perder as pessoas que a gente gosta. Perguntei se ele já tinha perdido alguém. Só um avô com quem não tinha muito contato. Mas que quase a família dele tinha perdido a vida recentemente.
Para minha surpresa, ele começou a contar de um acidente grave que sofrera com a família, ele, a mãe e o pai. Estavam numa rodovia, quando em uma subida um caminhão carregado não suportou o declive e voltou de ré. Atrás do caminhão vinham três carros. O terceiro era o de sua família, dirigido pelo pai. Os carros que estavam na frente conseguiram desviar, mas o carro de sua família foi atingido. O pai quase foi dilacerado pelo para-choque do caminhão, se não tivesse saltado a tempo para o colo da mãe. O garotinho bateu a cabeça, num dos rodopios do carro, e ficou inconsciente. Para completar, ele acrescentou, o motorista do caminhão não quer pagar as despesas da família com o conserto do carro. Perguntei quantos anos ele tinha quando tudo aconteceu e ele disse: dez anos. Como era sua idade atual, deduzi que tudo foi muito recente.
Continuamos caminhando e se aproximava o momento de nos despedirmos. Perguntei para onde ele ia: “Para o corpo de bombeiros” (que era ali próximo). Não entendi, mas também não perguntei mais nada. Disse apenas que seria importante que ele não ficasse sozinho naquele dia, que procurasse sua mãe ou o seu pai. Ele disse que o pai estava viajando e que não poderia ficar com ele. Ficou em aberto a possibilidade de ficar com a mãe. Nos despedimos aqui.

Aproximações

Embora Winnicott não tenha trabalhado com o conceito de resiliência, este último é afinado com sua teoria do desenvolvimento emocional, o que pretendo destacar por meio de três aspectos que considero fundamentais na história desse menino. A sua capacidade de criar (1) um interlocutor amigável e (2) uma narrativa (3) em que faz uma revelação de si mesmo.
Winnicott inventou o conceito de objeto subjetivo para destacar aquelas situações em que há uma presença humana, de fato, sustentando ou mesmo suportando ser um objeto de alucinação. Nesse processo, há um pressentimento do outro na fronteira entre o objetivo e o subjetivo. E é assim que começa a nossa história: um farejar mútuo e a criação a três de uma companhia amigável. Sim, o cachorro era um labrador e contribuiu ativamente com a nossa conversa. Daí a importância dos animais como terapeutas.
O segundo aspecto que se destaca é que, em alguns momentos, o relato transitava entre realidade e a ficção. Em que momento ocorreu aquela experiência terrível, há alguns dias, semanas ou meses? Como uma criança tão angustiada é deixada só, com um copo de chá nas mãos, indo para não sei muito bem pra aonde? Por que os pais não vieram buscá-lo? Encanta nesse menino, a força com que procurou a ajuda de que precisava: dividir com alguém a sua carga. Não importa saber o quanto de sua história é ficcional e, sim, reconhecer a sua capacidade de criar um mito pessoal de modo que um sofrimento profundo foi compartilhado de modo vivo, intenso, tocante.
Talvez o ponto em comum mais significativo entre o conceito de resiliência e a teoria winnicottiana do desenvolvimento emocional seja a ideia de que o falseamento e a submissão são os obstáculos mais importantes para um viver criativo. A resiliência é a capacidade de revelar a si mesmo e sua natureza é sempre a de uma denúncia de um ponto cego do grupo (familiar ou social). Neste caso, o lugar da criança e dos animais em nossa sociedade e a indignação de um menino frente a desonestidade do motorista. Ao mesmo tempo, um questionamento ético sobre confiar no próprio ser humano … e a narrativa recria a esperança.

Ressonâncias

A resiliência esta, invariavelmente, ligada a acontecimentos e a histórias de vida. É a capacidade que cada ser humano tem de lidar com a sua dor mais profunda, o que não é equivalente a invulnerabilidade ou êxito social (Cyrulnik, 2002). Ao dar significado às experiências traumáticas, o resiliente cria um tecido social humanizante. A superação do trauma é sempre o resultado de um encontro em que o relato de um sofrimento profundo, ao mesmo tempo cria e encontra ressonância social e cultural. Quando essa ressonância não acontece, o que presenciamos é um esgarçamento do tecido social de comunidade que resiste a mirar as próprias feridas e a recontar a sua história. Um exemplo recente são as notícias sobre alguns grupos que vêm fazendo apologia pública à volta de uma intervenção militar no Brasil. Neste caso, os riscos são a retraumatização das vítimas, a repetição das práticas de violência, o falseamento dos fatos, a desumanização social e o silêncio.

Considerações finais
Winnicott é um autor sensível à possibilidade de criar um ambiente confiável para que a criança possa reencontrar a sua angústia e comunicá-la. Naquela manhã, o que ocorreu entre mim, o cachorro e o garotinho resiliente se aproximou de uma consulta terapêutica (Winnicott, 1971/1984). A resiliência é o próprio gesto do garoto de criar um encontro e revelar-se – ao me contar sobre o seu drama e suas preocupações. Entendo que há uma conexão entre a história desse garotinho e o reencontro com a minha criatividade (ao identificar que a resistência era proveniente das reverberações do nosso tema sobre a minha história pessoal). O resultado foi o reencontro com uma situação traumática, a criação de um grupo de interlocutores amigáveis e o início do fluxo das palavras e das ideias. Entendo a resiliência como condição originária do ser humano – atualizada na superação de situações extremadas. Não somos todos nós resilientes em alguma medida ao sucumbirmos e superarmos as mais diferentes formas de adversidade?

Referências

Cyrulnik, Boris. (2002). Los patitos feos. Barcelona: Gedisa.

Winnicott, Donald Woods. (1984). Consultas terapêuticas em Psiquiatria Infantil. Rio de Janeiro: Imago. [Originalmente publicado em 1971].

(Walter José Martins Migliorini é membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Supervisor do Centro de Pesquisa e Psicologia Aplicada “Dra. Betti Katzenstein” e docente do Departamento de Psicologia Clínica na Unesp – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”)